28/10/2007

José Gabriel da Costa:

Trajetória de um brasileiro, Mestre e Autor da União do Vegetal
Sérgio Brissac

1. Introdução Este texto visa traçar a trajetória de José Gabriel da Costa, fundador da União do Vegetal, e relacioná-la com aspectos da especificidade cultural brasileira. Acompanhando o percurso de sua vida, é possível tecer uma ampla rede de relações com diversas configurações culturais presentes na sociedade brasileira. Este texto restringir-se-á a uma breve exposição dessa trajetória, através do recurso às poucas fontes de informação disponíveis, limitando-se a apontar somente algumas possíveis linhas de investigação, a serem desenvolvidas oportunamente. Em 22 de julho de 1961, José Gabriel da Costa, chamado por seus discípulos de Mestre Gabriel, fundou a União do Vegetal, a UDV, na Amazônia, em região próxima à fronteira entre o Brasil e a Bolívia. . Como centro da atividade religiosa do grupo está a ingestão da Hoasca ou Vegetal, chá obtido a partir de duas plantas, um cipó denominado mariri, Banisteriopsis caapi, e um arbusto chamado chacrona, Psychotria viridis. No ano de 1965, José Gabriel da Costa mudou-se para Porto Velho, onde consolidou a União recém-fundada. Em 1967, após incidentes de perseguição policial ao grupo em Porto Velho, é encaminhada a constituição de uma entidade civil, primeiramente denominada Sociedade Beneficente União do Vegetal, adotando depois o nome definitivo de Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Ainda em vida de Mestre Gabriel, foi fundado o núcleo de Manaus e em 1972, um ano após seu falecimento, já se inaugurou o núcleo de São Paulo. Em 1998, havia em torno de 70 núcleos espalhados por todo o Brasil, totalizando aproximadamente 7 mil sócios. 2. José, o menino de Coração de Maria No dia 10 de fevereiro de 1922, na localidade de Coração de Maria, próxima a Feira de Santana, Bahia, nasce José Gabriel da Costa. Filho de Manuel Gabriel da Costa e Prima Feliciana da Costa, José nasce em uma numerosa família de treze irmãos: João, Dionísio, Otacílio, Pedro, Romão, Maria, “Miúda”, José Gabriel, “Sinhá”, Alfredo, Antônio, Maximiano, Hipólito. No livro União do Vegetal: Hoasca; Fundamentos e Objetivos, o único texto editado para o grande público até o momento pela instituição, apenas três páginas tratam da vida do fundador da UDV. Assim, tivemos de buscar informações junto a parentes e outras pessoas que com ele conviveram, além de pesquisar no jornal Alto Falante, do Departamento de Memória e Documentação da UDV. Segundo seus parentes, desde pequeno, José já se destacava como alguém especial. Contam que ainda criança, ele auxiliou uma mulher com dificuldades de parto. O bebê se encontrava mal posicionado e a parteira temia que morressem mãe e filho. José entra no quarto, manda todos saírem, tranca a porta e logo em seguida a destranca. Quando o menino abre a porta, simultaneamente nasce a criança. Na década de 20, o menino José cresce em um meio rural fortemente marcado pelo catolicismo popular. Uma recordação que narram de sua infância é que o “garoto ia aos domingos à igreja de sua cidade e levava com ele um barbante. Durante a missa, amarrava as pessoas umas às outras, pelos passantes das roupas, sem que elas percebessem”. Nas chamadas, hinos entoados durante o ritual da UDV, há referências constantes a Jesus e a vários santos católicos: a Virgem da Conceição, São João Batista, a Senhora Santana, São Cosmo e São Damião. Aos 13 anos de idade, em 1935, José vai trabalhar em Salvador. Emprega-se em diversos estabelecimentos comerciais. Aos 18 anos, presta serviço militar voluntariamente na Polícia Militar da Bahia, chegando em poucos meses à patente de cabo de esquadra. Segundo seu irmão Antônio, atualmente também mestre na UDV, José Gabriel “conheceu todas as religiões, conheceu os terreiros de Salvador, andou por todas as religiões procurando a realidade”. Segundo outro mestre, José iniciou na “ciência espírita” com apenas 14 anos. Provavelmente, esta informação refere-se à participação de José em terreiros de candomblé, e não em centros kardecistas, com os quais entretanto ele também entrou em contato, só que posteriormente, ainda quando morava em Salvador. Segundo o pesquisador Afrânio Patrocínio de Andrade, José Gabriel freqüentou sessões espíritas kardecistas na Bahia . Foi, aliás, em Salvador que teve início o espiritismo kardecista no Brasil, no ano de 1865. Luís Olímpio Teles de Menezes fundou nesse ano o centro espírita Grupo Familiar do Espiritismo. De acordo com Patrocínio de Andrade, certos temas recorrentes na União do Vegetal poderiam ter sido colhidos do espiritismo kardecista. Antes de mais nada, a visão reencarnacionista, um dos eixos fundamentais da visão de mundo da UDV. Assim como o lema “Luz, Paz e Amor”, denominado o “símbolo da União”, poderia provir dos temas espíritas da “luz interior”, da “paz de espírito” e do “amor ao próximo” (ou caridade). A própria ênfase na “União” é freqüente entre os espíritas no Brasil. 3. O capoeirista Segundo declarações de familiares, o jovem José foi considerado pelos prosadores populares um dos melhores da região. Como cantador repentista teve sucesso inclusive em Alagoas e Sergipe. Também se destacou na capoeira, chegando a ser considerado um dos melhores do Nordeste. O livro de Ruth Landes, A cidade das mulheres, nos auxilia a traçar um panorama dos ares soteropolitanos da década de 30, que José tantas vezes respirou. A autora é levada por Edison Carneiro para assistir uma capoeira. Ela descreve detalhadamente a seqüência do jogo, e em certo momento, observa: “silenciados os ecos do desafio, terminada a rodada, os dois homens andavam e corriam sem descanso em sentido contrário aos ponteiros do relógio, um atrás do outro, o campeão à frente com os braços levantados”. É interessante notar que no ritual da UDV a circulação das pessoas no salão se faz também no sentido anti-horário, pois “este é o sentido da força”. Na capoeira, José cultiva uma série de habilidades postas em prática posteriormente, em suas experiências de incorporação nos toques de caboclo como Sultão das Matas. Do mesmo modo, tais habilidades também foram exercitadas como Mestre da UDV. Evocadora desse ambiente capoeirista é a cantiga de domínio público gravada por Nara Leão, às vezes tocada em sessões da UDV: “Minino, quem foi teu mestre? Meu mestre foi Salomão. A ele devo dinheiro, saber e obrigação. O segredo de São Cosme quem sabe é São Damião, olê Água de beber, camarada água de beber, olê Água de beber, camarada faca de cortar, olê Faca de cortar, camarada, Ferro de engomar, olê Ferro de engomar, camarada Perna de brigar, olê Perna de brigar, camarada. Minino, quem foi teu mestre?” Parece estar relacionada à capoeiragem a decisão do jovem José de viajar da Bahia para o Norte. De acordo com relato de seu filho Carmiro da Costa, em 1943 José envolve-se num conflito. Um amigo seu, de nome Mário, tem o pé pisado por um policial. José Gabriel “compra a briga do Mário”. Este foge e os policiais seguram José. Num golpe de destreza, ele consegue se desvencilhar dos policiais. Segue para um navio, para onde tinha ido se refugiar o amigo Mário. Os dois se alistam no “Exército da Borracha” e rumam para o Norte no navio Pará, da frota do Lloyd Brasileiro. Chegando a Manaus, embarcam no navio Rio Mar, com destino a Porto Velho, onde chegam no dia 13 de setembro de 1943. Os dois vão juntos para o trabalho na seringa e fazem um “pacto de amigo”, de só se separarem pela morte. No seringal, José Gabriel cumpre até o fim esse pacto, cuidando de Mário, que adoece com leishmaniose. Chega a carregar Mário nas costas por vários quilômetros. Quando o doente morre, seu amigo sozinho o enterra na floresta. Tudo indica que Mário era companheiro de capoeira de José Gabriel. No mundo da capoeiragem na época, a ética dos grupos sublinhava a importância da solidariedade e fidelidade entre os camaradas. E eram freqüentes os conflitos entre os grupos, com a polícia ou com indivíduos de outros segmentos da sociedade. Em dissertação acerca da capoeira no Rio de Janeiro de 1890 a 1937, Antonio Pires afirma que “as relações de conflito e solidariedade na capoeiragem estiveram permanentemente relacionadas com os conflitos mais gerais da sociedade”. Parece que já se esboça nesse tempo a preocupação de José Gabriel com a “justiça”. Sua participação na capoeiragem em Salvador não conflita com seu engajamento profissional, primeiramente como comerciário e depois como enfermeiro. Como observa Antonio Pires quanto à capoeira no Rio, “a maioria dos capoeiras comprovaram manter vínculos com o ‘mundo do trabalho’, descaracterizando o estereótipo de vadios construído em relação a eles.” 4. O seringueiro do Exército da Borracha Chegando no Território de Guaporé, atual Estado de Rondônia, José Gabriel se insere num ambiente com uma configuração ecológica e sócio-cultural bem distinta da Cidade de Salvador. O extrativismo da borracha, depois de seu período de boom, entre 1890 e 1912, havia em seguida atravessado uma fase de declínio, devido à concorrência no mercado internacional da borracha extraída na Ásia. Com a Segunda Guerra Mundial, apresentou-se a necessidade de borracha para os exércitos Aliados. Com a assinatura de acordos com os Estados Unidos, o Governo Vargas iniciou uma ampla campanha de recrutamento de trabalhadores, principalmente nordestinos, para a extração gomífera no Norte. Foi criado o SEMTA, Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia, que, somente no ano de 1943, encaminhou 13 mil pessoas, segundo dados oficiais. No mesmo ano de 1943, José Gabriel integra essa massa de trabalhadores nordestinos que se lançam como “brabos” nos seringais amazônicos. “Brabo é gente que nunca cortou seringa, nunca andou na floresta. Sofremos muito, como brabo” - declara Pequenina, esposa de José Gabriel. O sofrimento daqueles homens, submetidos a condições de vida e trabalho extremamente penosas, em um ambiente desconhecido, sem o auxílio governamental prometido pela propaganda oficial, ficou bem marcado na memória dos sobreviventes da “batalha da borracha”. A antropóloga Lúcia Arrais, que está elaborando sua tese de doutorado a respeito dos soldados da borracha, recolheu o seguinte depoimento, de um Sr. Chico, ex-soldado da borracha, que bem se assemelha ao da esposa de José Gabriel: “.... a casa dele era bem pequenininha num tinha onde a gente dormir. Dormimo no teto mermo. Carapanã! Carapanã, Lúcia! e agora, a comida? Tudo brabo, tudo... a gente já tinha deixado a Companhia [SEMTA] já... Aí fiquemo aí sofrendo.. fiquemo jogado que nem cachorro na beira do rio... [Qual?] era o Solimões acima de Tefé. Aí eu disse: ‘ombora pessoal! vamo meu povo!, bora cuidar!, bora se virar’.” Arrais observa que aqueles que conseguiram sobreviver a condições tão adversas foram homens de significativa inteligência e iniciativa, que conseguiram adaptar seus esquemas de percepção e recursos cognitivos à nova realidade em que se encontravam: “Numa atitude de quem vive em estado de autodefesa permanente, o Sr. Chico diz: ‘ombora pessoal! bora se virar!’. E então escolhem uma linha de ação onde predomina a iniciativa e a coragem. Onde prevalece a concentração dos recursos da percepção, da memória e da atenção para dirigir esforços na descoberta de meios capazes de resolver a questão.” José Gabriel foi um desses homens de aguda inteligência e destreza, que não somente conseguiu sobreviver como chegou a ser considerado pelos seus companheiros como o “Tuxáua”, o seringueiro que coletava maior quantidade de seringa na região. Tais êxitos eram acompanhados de dureza e sofrimento, como quando José Gabriel pisou em uma arraia, e teve de passar “um ano e dez meses sem poder andar, de muleta”. 5. O ogã do terreiro de Chica Macaxeira Depois de trabalhar um tempo no seringal, José Gabriel muda-se para Porto Velho, onde fica trabalhando como servidor público, enfermeiro no Hospital São José. Conhece, em 1946, Raimunda Ferreira, chamada Pequenina, com quem se casa no ano seguinte. Em Porto Velho, “Seu” Gabriel atendia pessoas em sua casa, pois jogava búzios. Mais tarde, se torna Ogã e Pai do Terreiro de São Benedito, de Mãe Chica Macaxeira. Esse terreiro foi citado por Nunes Pereira, que o visitou, possivelmente em meados da década de 60 ou no início dos anos 70. O pesquisador maranhense reconhece o terreiro de Porto Velho como sendo da tradição mina-jeje, oriundo da Casa das Minas. “Os toques, inegavelmente, tinham a rítmica que me era familiar não só da Casa das Minas, de São Luís do Maranhão, como do Bogum de Mãe Valentina, em Salvador, Estado da Bahia.” É surpreendente descobrir que Nunes Pereira encontrou no Terreiro de Chica Macaxeira uma “inovação no ritual mina-jeje, o uso da ayahuasca. E isso, sem dúvida, para estimular , paralelamente, com os cânticos rituais e com a voz sagrada dos tambores, ogãs e gôs, o estado de transe, a possessão que ligam os Voduns do panteão daomeano ou do ioruba às gonjais e noviches que o cultuam”. Ora, no tempo em que José Gabriel lá trabalhava como Ogã, não havia utilização da ayahuasca no culto, tanto que ele somente viria a conhecer a bebida anos depois, no seringal. Assim, é legítimo deduzir que a Mãe-de-Terreiro Chica Macaxeira conheceu a ayahuasca através de seu antigo Ogã e Pai-de-Terreiro José Gabriel. Quando Nunes Pereira visitou o terreiro, o conjunto dos cânticos era lá denominado Doutrina da Ayahuasca. “Nomes de santos católicos, nalguns desses cânticos, se misturaram com os dos Voduns mina-jejes, tais como Xangô, Badé, Avêrêquête, e os ditos Barão de Goré, Sultão das Matas, Marangalá, Jatêpequare, Tindarerê, etc.” É significativo que nos anos 60 ou 70 haja a presença do Sultão das Matas na lista das entidades do terreiro, já que, como se verá adiante, José Gabriel “recebia” esse caboclo quando trabalhava num terreiro que armou no seringal, nos anos 50. 6. O Sultão das Matas e os xamãs da fronteira boliviana Até 1950, José Gabriel morava com Pequenina em Porto Velho. O casal já tivera dois filhos: Getúlio e Jair. Além de trabalhar como enfermeiro, ele tinha também uma taberna de bebidas. E gostava de política. Diante dos dois partidos que disputavam o governo do Território de Guaporé, o de Rondon e o de Aluísio, José Gabriel era pró-Rondon. No entanto, seu candidato perdeu, e ele foi perseguido em seu emprego público no hospital. Tendo de se afastar de seu trabalho, José resolve voltar para o seringal. E sua mulher discorda: “Eu disse: ‘Não, o que é isso? Eu não nasci no seringal, em mato. Não quero criar meus filhos sem saber ler e escrever.’ Ele disse: ‘É porque eu vou atrás de um tesouro.’ Mas eu era uma pessoa de cabeça cheia de muitas coisas e achei que era riqueza material que ele ia achar, e nós ia enricar, ter uma vida de rosa. Então, quando ele disse que ia, eu disse: ‘Então, vamos.’ Então eu digo que esse tesouro que ele encontrou junto comigo e os dois filhos, pra mim, é um tesouro tão maravilhoso que dinheiro nenhum não paga essa felicidade. (...) Então, esse tesouro, que é a União do Vegetal, tem me amparado.” Nestas palavras de Mestre Pequenina e provavelmente também na afirmação de José Gabriel, poder-se-ia detectar a presença dos motivos edênicos que povoaram o imaginário das populações que se defrontaram com a floresta amazônica. Nos sonhos e anseios dos nordestinos pobres que se lançam na aventura da borracha ecoam ainda as buscas das “estranhas coisas deste Brasil”: do Eldorado, da Lagoa do Vupabuçu, ou da serra anunciada por Filipe Guillén, “que ‘resplandece muito’ e que, por esse seu resplendor era chamada ‘sol da terra’ ”. Posteriormente, o sonho do tesouro a ser encontrado na selva é resignificado, passando a expressar a União do Vegetal, que nasce da floresta, de um líquido também dourado, denominado por vezes de “chá misterioso”. No seringal Orion, José Gabriel abriu o terreiro no qual “recebia” o caboclo Sultão das Matas. Como recorda Mestre Pequenina, “vinha gente de tudo quanto era seringal” consultar o Sultão das Matas. E ele curava as pessoas, assim como indicava o lugar certo onde se encontrava caça. Adaptando-se a um novo contexto sócio-ecológico-cultural, José Gabriel dirige um rito sincrético afro-indígena, no qual o valor simbólico da floresta, que perpassa toda a vida dos seringueiros, fica evidente. Tal rito, designado pelo filho de José Gabriel simplesmente como “macumba”, parece assemelhar-se à pajelança cabocla amazônica, uma forma de xamanismo não-indígena na qual tem importância fundamental a noção de incorporação do curador por entidades espirituais que agem através dele para a cura dos doentes. No entanto, certamente permaneciam marcantes nos toques do Seringal Orion os elementos religiosos afros vivenciados anteriormente por José Gabriel, seja na Bahia, seja em sua participação no Terreiro de São Benedito de Porto Velho. Mais tarde, quando já estão em outro seringal, Pequenina fica sabendo de um chá: “o pessoal vê isso, vê aquilo, o cara falou até com o filho depois de morto”. Ela fala a José Gabriel e ele vai pedir o chá ayahuasca a quem o distribuía no lugar. Mas o homem disse que “não dava o Vegetal praquele baiano que sabe aonde as andorinhas dormem”. Tempos depois, no seringal Guarapari, numa colocação chamada Capinzal, na região da fronteira boliviana, José Gabriel recebe pela primeira vez o chá de um seringueiro chamado Chico Lourenço, no dia 1° de abril de 1959. Chico Lourenço representa uma tradição indígena-mestiça de uso xamânico da ayahuasca que se espalha por uma ampla região da Amazônia ocidental. Tal tradição é designada posteriormente pela UDV como a dos “Mestres da Curiosidade”. Aí se inicia nova etapa na trajetória de José Gabriel. 7. O Mestre e Autor da União do Vegetal José Gabriel bebe apenas três vezes o chá com Chico Lourenço. Logo depois, viaja por um mês para levar um filho doente a Vila Plácido, no Acre, e quando retorna traz um balde com o cipó mariri e a folhas de chacrona que colheu no caminho. Diz à mulher: “Sou Mestre, Pequenina, e vou preparar o mariri”. Segundo seu filho Jair, “nesse período o Mestre Gabriel não deixou a macumba não. Ele fazia uma Sessão de Vegetal e uma de umbanda.” Somente em 1961 ele reuniu as pessoas e disse: “Eu quero falar pra vocês que tudo que o Sultão das Matas fez eu sei: Sultão das Matas sou eu.” Este é um dos momentos mais importantes de ruptura de José Gabriel com a tradição religiosa à qual estava ligado anteriormente. Ao postular para si mesmo o poder antes atribuído à entidade Sultão das Matas, o agora Mestre Gabriel nega a incorporação dos cultos de caboclo e configura o transe que será típico da União do Vegetal: a burracheira. A burracheira, que segundo Mestre Gabriel significa “força estranha”, é a presença da força e da luz do Vegetal na consciência daquele que bebeu o chá. Assim, trata-se de um transe diverso, no qual não há perda da consciência, mas sim iluminação e percepção de uma força desconhecida. Há uma potencialização dos sentimentos, das percepções e da consciência do indivíduo. Em seguida, Mestre Gabriel e sua família se mudam para o seringal Sunta. No dia 22 de julho de 1961, ele reúne as pessoas para um preparo de Vegetal. Nesse dia, o Mestre Gabriel declara criada a União do Vegetal. Ou melhor, afirma que a UDV foi recriada, já que ela teria existido no passado, quando ele mesmo teria vivido em outra encarnação. No dia 6 de janeiro do ano seguinte, Mestre Gabriel se reúne com doze Mestres da Curiosidade no Acre, em Vila Plácido. Numa sessão, eles reconhecem Gabriel como o Mestre Superior. Finalmente, no dia 1° de novembro de 1964 é realizada uma sessão na qual o Mestre Gabriel afirma que fez a Confirmação da União do Vegetal no Astral Superior. Logo depois, em 1965, ele se muda para Porto Velho, para lá consolidar a nascente instituição. Apenas seis anos depois, se deu o falecimento de José Gabriel da Costa, no dia 24 de setembro de 1971. 8. Conclusão Descrevendo-se em largos traços a vida de José Gabriel da Costa, fica patente a sua participação numa larga seqüência de configurações culturais muito próprias da sociedade brasileira: o catolicismo popular rural do interior da Bahia, a capoeiragem e os cultos afro-brasileiros de Salvador, a vida sofrida de seringueiro na Amazônia, a experiência de incorporação dos cultos de caboclo, o transe xamânico do hoasqueiro, e, finalmente, a atuação carismática do fundador de um novo movimento religioso. A maleabilidade, a destreza, a vivacidade e a ginga da capoeira contribuíram para que José Gabriel viesse a elaborar uma inovadora síntese de diversos elementos culturais e religiosos, num culto profundamente adaptado à realidade sócio-cultural amazônica. E não apenas adaptado a esta, mas com virtualidades para se expandir por todo o Brasil, exatamente por ser constituído por uma criação vigorosa que se apropriou de configurações provenientes de diversas regiões brasileiras. O que ensina Gilberto Freyre pode inspirar a conclusão deste texto: “Verificou-se entre nós uma profunda confraternização de valores e de sentimentos. Predominantemente coletivistas, os vindos das senzalas; puxando para o individualismo e para o privatismo, os das casas-grandes. Confraternização que dificilmente se teria realizado se outro tipo de cristianismo tivesse dominado a formação social do Brasil; um tipo mais clerical, mais ascético, mais ortodoxo; calvinista ou rigidamente católico; diverso da religião doce, doméstica, de relações quase de família entre os santos e os homens, que das capelas patriarcais das casas-grandes, das igrejas sempre em festas - batizados, casamentos, ‘festas de bandeira’ de santos, crismas, novenas - presidiu o desenvolvimento social brasileiro.” José Gabriel da Costa, nascido nessa sociedade propensa a hibridismos, plena de plasticidade e inclusividade, elabora uma nova religião que também é “doce”, na medida em que privilegia o sentir e propicia ao indivíduo espaço para que ele próprio construa suas reinvenções criativas.

20 comentários :

Anônimo disse...

Bem, a UDV é um centro espírita, que a encarnação como um dos seus pilares. Só que na UDV não há incorporação há apenas a beberagem de um líquido, que eles chamam de Vegetal. Uma coisa interessante nessa doutrina espírita é que Allan Kardec e o Irineu Serra nunca criaram uma hierarquia de filiados. A UDV criou mestres, conselheiros e sócios. Penso que isso é ao mesmo tempo interessante e polêmico. Já que mestre em princípio tem que apresentar um grau de conhecimento e sabedoria. É interessante saber se UDV realiza esse obejetivo de preparar seus mestres para iniciar os seus sócios nos mistérios sagrados do Vegetal. Frater.

Anônimo disse...

Lí a mensagem do amigo anônimo e gostaria que vcs me dissessem alguma coisa por que não udv tem essa hierarquia?

Anônimo disse...

Amigos acrescentem alguma coisa do frei Daniel Pereira de Matos que criou a Barquinha.

Anônimo disse...

O lance é o seguinte já fui em muitos núcleos da UDV acredito que os Mestres da UDV têm que ser mais bem preparados. Em muitos lugares que fui eles não sabiam responder as perguntas direito. Deixavam a gente na dúvida. Já vi em lugares diferentes eles responderem as mesmas perguntas cada vez dizendo uma coisa de um jeito. Também achei a relação de Mestre e discípulo na UDV muito autoritária.

francisco disse...

Para mim o mestre da união é um grande exemplo de humildade na terra pela forma simples que ele viveu, falava que ia encontrar um tesouro mas o tesouro do qual falava era a união,tenho 31 anos de idade quando nasci mestre gabriel ja tinha morrido mas para mim ele é um grande guia enviado por Deus, ja tive oportunidade de conhecer uma pessoa que conviveu com ele chamado bacural, e ele falou que o mestre era totalmente desligado as coisas materiais, que bom seria se todas as religiões fizessem o mesmo trabalho que a união na terra.

Anônimo disse...

A linha do Mestre Gabriel é de fundamental importância, porque o vegetal veio para tirar as pessoas do abismo do mundo.

IRWWE disse...

oi,

vou falar um pouco a respeito da hierarquia na UDV. A UDV divide os membros em grupos cada qual com um ensino diferenciado. isso é muito importante pois muitas vezes o discipulo ainda nao tem os ouvidos preparados para ouvir um certo ensinamento, e a mente despreparada para receber aquele ensino, está sujeita a ficar um pouco confusa, o que nao é bom.

os ensinos em uma sessao de escala na uniao, tem um ritmo e um ensinamento, o qual é assessivel a maioria das pessoas, pois o mestre está preparado para ir até o grau do discipulo e responder o que ele consegue compreender.

foi dito em um comentario aqui que uns mestres ensinam de uma forma e outros de outra. isso se deve a muitos fatores, e o principal é o grau de entendimento do discipulo.

se um discipulo de grau "1" faz uma pergunta, recebera resposta de grau "1", enquanto um discipulo de grau "3" recebera resposta no grau apropriado.

muitas religioes tem usado esse sistema de divisao em hierarquia para preservar os seus ensinos, fazendo assim que nao caiam nos ouvidos de pessoas despreparadas.

espero ter ajudado.

italo.

Anônimo disse...

Concordo que nao sao todos os mestres que respondem corretamente as perguntas que sao feitas. Mais temos que ver, que cada um tem um jeito de responder, um jeito de explicar, uns sabem mais, outros sabem menos. Entao devemos respeitar isso. e o mestre Gabriel concerteza foi enviado por deus.

Anônimo disse...

Oi,
Conheço um nucleo da udv que passa longe de pregar o amor, lá muitos julgam as pessoas e não tratm bem quem chega.

Anônimo disse...

olha amigo este nucleo que você conheceu pode ater ser do centro espirita união do vegetal mais com certeza se este nucleo tem está atitude os dirigente não estão trabalhado de acordo com a orientação que recebe da cede geral pos o sibolo da união é luz paz e amor e um dos maiores incinamento do mestre gabriel é o dicipulo deve amar o procimo como aci mesmo para ser merecedo de receber o sibolo da união.

Anônimo disse...

Conheço um núcleo no sul que fala de amor, paz e de união, mas não pratica. É só conhecer um pouco mais quem frequenta para sentir a frieza com que tratam as pessoas. No início parece ser uma grande família mas não demora muito para se concluir que o que se fala não corresponde ao que é apregoado.Formam-se as "panelinhas" e desprezam as pessoas que não são "merecedoras" ou que estão em um grau muito inferior de acordo com os mesmos.

IRINALDO disse...

Ólá eu antes de conhecer aunião
do vegetal, eu me encontava em situações sem direção, hoje diferentes de algumas compreenção
que li no comentários.
E bebi o chá e cntinuo bebendo, eu e minha fámilha,venho recebendo ensinos verdadeiro, caminho este que oméstre gabriel vem nosguiando.

Uum conselho amigos se espelhen no mestre GABRIÉL COM LUZ PAZ E AMOR.

WAGNO SOUSA disse...

Vejo comentarios meio que absurdos aqui. Falar das coisas sem saber , fica complicado , é preciso conhecer,participar e assim depois comentar alguma coisa.. a UDV é um lugar onde se pratica a paz , o amor , a união. UDV é um grande exemplo que paz e amor.. Porisso antes de sair por ae em blogs etc, falando oque não sabem, participem d euma seção e tire usas propias conclusões... LUZ PAZ E AMOR .. Deus em primeiro LUGAR...

Bruno disse...

Sou novo na União, sou apenas um sócio ( primeiro "nível" ). Mas posso dizer algumas palavras para todos que chegam aqui com interesse em saber o que é a UDV.

1. O registro ( razão social ) da UDV é "Centro Espírita Beneficente União do Vegetal". Apesar de ter Espírita no nome ela não tem nada a ver com o Espiritismo de Alan Kardec.

2. Irineu foi o fundador do Santo Daime, a UDV foi criada pelo Mestre Gabriel.

3. No núcleo onde participo, a primeira coisa que me deixou "CHOCADO" foi a vivência do amor e da verdadeira UNIÃO entre os irmãos. Eu entendo que estamos sujeitos a aparecerem outros núcleos onde não se vive o amor, mas com certeza, isso é exceção. Na UDV o ensinamento é de Luz, Paz e Amor.

Quem estiver realmente interessado em saber o que é a UDV, precisa ir lá e conhecer, porque palavras não são suficientes para expressar.

WBR disse...

Sou membro da UDV há 02 anos, e venho conhecendo outros núcleos, e em todos que conheci até o dia de hoje, me recebem com todo carinho e atenção, então, minha resposta aos comentários, e de que os que falam besteiras, precisam ir conhecerer e ter a coragem de beber este chá sagrado e ver verdadeiramente, dentro de si mesmo, e encontrar o caminho da luz da paz e do amor, e o principio de tudo é ter respeito. pelo que ainda não se conhece.

Anônimo disse...

Alguns dos irmãos que por acaso não recebeu a resposta esperada,durante uma sessão na UDV, é porque não é assim que é feito, tudo vem pelo merecimento, ou não merecia tal resposta ou não tinha preparo suficiente para tal, aviso que se for sincero e seguir nos ensinamentos de Mestre Gabriel todas as suas duvidas virarão respostas, desejoor a todos que tenham na vida plenitude de Luz, Paz e Amor

Anônimo disse...

eu vejo o seguinte:se a pessoa não recebeu a resposta desejada do mestre,a famosa "patada",o mestre tem que examinar suas palavras e a pessoa pode falar com o mestre assistente ou em representação.Isto é uma atitude normal,pois nem o mestre mais experiente é perfeito(como vimos o caso do mestre braga em caruaru)temos que seguir os ensinos do nosso grau pois temos que estar com a memoria pronta para recebê-los e realmente existem núcleos mais fechados mais isso vai do pensamento de cada pessoa,pois como dizia o mestre gabriel:"a união do vegetal é perfeita,mas os irmãos..."cada um tem que cuidar de sí e fazer o seu trabalho.e como diz a chamada da estrela guia:"não pessa a quem não tem,mesmo que tenha ele não vai te dar."com luz paz e amor!!

Anônimo disse...

caros amigos aqui e paulo barbosa carvalho e as respostas dos mestres sao oriundas do vegetal vcs sabem disso so que ha um aspecto extremamente militar na udv.Lembremos qe a Udv foi formada durante a ditadura militar e cs querem saber ninguem precisa de mestre mestre e a ayahuasca por si so o resto e querer cabrestiar o ser humano e por ordem e disciplina sem o qual seria perigoso beber o cha,falo por experirencia propria e,falando serio,mestre Gabriel tem mesmo o estatus der messias alias, de sultao das matas que o proprio reconheceu ser ego sera que o INCA,sei la que inca era ja que quatro incas TINHAM o nome inca alem de ser um titulo e o tal CAIANO nao eram reflexo do ego do mestre Gabriel?

Anônimo disse...

Paulo Barbosa Carvalho. Luz, paz e amor pra você, irmão. Que Deus ilumine sua consciência e lhe mostre o caminho verdadeiro. Com o tempo o senhor vai entender essas palavras mais profundamente e vai encontrar a resposta pras suas indagações. Que Deus abençoe sua vida e seus próximos

Anônimo disse...

Paulo Barbosa Carvalho. Que Deus ilumine sua consciência e lhe mostre o caminho verdadeiro. Com o tempo o senhor vai entender essas palavras mais profundamente e vai encontrar a resposta pras suas indagações. Que Deus abençoe sua vida e seus próximos!
Luz, paz e amor pra você, irmão.